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2 de setembro de 2026

ReData: o Brasil na nova geografia da infraestrutura digital

Durante os últimos anos, a soberania digital deixou de ser um conceito restrito às discussões regulatórias e passou a ser uma questão de infraestrutura. O mundo depende do digital, que, por sua vez, depende de capacidade física para processamento, armazenamento e conexão. E, no Brasil, uma parcela relevante dessa capacidade ainda está fora do país. Estimativas do governo indicam que cerca de 60% da carga digital brasileira é processada em data centers no exterior.

Ao mesmo tempo, o mercado brasileiro atravessou um período de espera. A necessidade de ampliar a infraestrutura digital crescia, impulsionada pela computação em nuvem e, mais recentemente, pela inteligência artificial, enquanto investimentos de longo prazo aguardavam maior previsibilidade para avançar. Com a aprovação do PL 278/26 pelo Senado, nesta terça-feira (01), que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (ReData), o Brasil passa a ter um marco regulatório capaz de dar celeridade a essa expansão.

Uma escolha sobre a infraestrutura da IA

A aprovação do ReData ocorre em um momento particularmente importante para a infraestrutura digital. Como sabemos, a IA está alterando a escala e a natureza da capacidade computacional necessária no mundo, enquanto empresas e governos buscam ampliar o processamento de cargas de trabalho de alta densidade e de aplicações de alto desempenho. No Brasil, essa demanda encontra um mercado com espaço significativo para crescer, e o regime cria condições para que este cenário se converta em capacidade instalada.

O ReData se diferencia de uma política de incentivo baseada exclusivamente na redução de custos: o acesso aos benefícios está associado a compromissos relacionados à disponibilidade de capacidade para o mercado interno, ao uso de fontes renováveis ou de baixa emissão.

Essa combinação é particularmente relevante para um país que reúne uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo. Em 2025, 86,8% da oferta interna de eletricidade brasileira veio de fontes renováveis. Em um cenário no qual a expansão da IA aumenta a demanda por energia, essa característica coloca o Brasil em uma posição competitiva singular para desenvolver infraestrutura digital associada a uma matriz de menor intensidade de carbono.

A oportunidade, portanto, ultrapassa a atração de novos empreendimentos. O ReData cria as condições para que o Brasil participe de uma cadeia de valor que começa na geração de energia e na infraestrutura física, passa pelo processamento de dados e chega à inteligência aplicada aos negócios e aos serviços que movimentam a economia.

Do potencial à capacidade operacional

O ReData reposiciona o Brasil na cadeia de valor global: deixamos de ser apenas exportadores de commodities agrícolas e minerais para nos tornarmos exportadores de inteligência e capacidade computacional limpa. Mas o regime não é a linha de chegada, e sim um ponto de partida de uma nova década industrial digital.

Transformar esse contexto em infraestrutura efetiva dependerá da capacidade de planejar energia e conectividade, desenvolver cadeias de fornecedores, formar profissionais, escolher localizações estratégicas e construir ambientes capazes de operar cargas de trabalho cada vez mais densas e críticas.

O Brasil demanda uma infraestrutura digital capaz de sustentar sua transformação econômica, tecnológica e social nas próximas décadas. Com o ReData, o protagonismo do país dependerá da capacidade de transformar essa base regulatória em infraestrutura de alta performance, resiliente, segura e sustentável — e fazer dela parte efetiva da próxima etapa de desenvolvimento do país.