Transformação digital no setor público não começa com tecnologia. Começa com diálogo
Nos últimos 20 anos, o debate sobre transformação digital no setor público se restringiu à adoção de novas tecnologias. Sistemas, digitalização, automação, IA. Em muitos casos, nos concentramos no “o quê” e no “como”, mas raramente no “antes disso”. Ao longo da minha trajetória em projetos de infraestrutura digital para o setor público, eu vi esse padrão se repetir: a discussão começa na tecnologia, quando deveria começar na construção das condições institucionais para que essa tecnologia funcione em escala.
Eu entendo a transformação digital como uma agenda de Estado – e se não é, deveria ser.. Não como uma iniciativa setorial, mas como um vetor direto de desenvolvimento econômico e social. E nesse contexto a relação entre setor público e setor privado é estrutural. Para mim, esse é um dos principais fatores de sucesso da transformação digital.
O que mudou na relação entre governo e mercado
Ao longo dessa minha jornada, participei de projetos de grande complexidade, incluindo três licitações vencidas junto à Petrobras, e pude viver isso de perto. A primeira foi para um serviço de colocation, algo muito inovador para a época, e a última aqui, na Elea Data Centers, para suportar um supercomputador. Entidades públicas têm a necessidade de construir o melhor para a população e uma capilaridade difícil de alcançar, e têm muito a ganhar quando esse potencial é combinado com o conhecimento de mercado e know how do setor privado.
A nova legislação para licitações, que inclui as leis 14.133 (2021) e 13.303 (2016), trouxeram mecanismos que ampliam a capacidade de planejamento e relacionamento, como o diálogo competitivo e modelos mais flexíveis de estruturação de contratações. Essa evolução é muito importante em projetos complexos de tecnologia, onde muitas vezes a administração pública conhece o problema que precisa resolver, mas precisa do mercado para identificar a melhor solução disponível.
Como a infraestrutura digital vêm ganhando mais relevância no setor público
A relação entre o setor público e os data centers vai muito além de uma simples decisão de eficiência operacional; ela é delimitada por salvaguardas jurídicas e estratégicas de uma agenda própria de Estado. Uma delas, e uma muito importante, que vem ganhando cada vez mais relevância, é a soberania digital. Dados governamentais, por sua natureza sensível e de segurança nacional, precisam ser tratados e armazenados com máxima atenção. O armazenamento físico dentro do país garante que as informações da população permaneçam aqui, mitigando riscos e fazendo com que eles não estejam sujeitos a questões internacionais.
Além disso, a criticidade e a escala do atendimento público redefinem o conceito de disponibilidade. Se uma estrutura estatal falha, o impacto direto é a interrupção do acesso do cidadão a direitos e serviços essenciais. É por isso que projetos de grande escala já demandam infraestrutura de altíssima performance, como sistemas de liquid cooling e monitoramento em tempo real com uso de IA – ferramentas que surgem no setor privado.
Com o avanço de arquiteturas híbridas e maior integração entre ambientes públicos e privados, já é possível ver como infraestrutura de alta performance está sendo desenhada para suportar workloads críticos de governo, especialmente em contextos de IA e análise de dados.
Fiquei muito feliz de ver, inclusive, alguns desses temas sendo debatidos por Renzo Quedevez, da Petrobras, e Fernanda Belchior, Diretora da Elea no encontro que promovemos no Energy Summit. Além de conversarem sobre a nossa bem-sucedida parceria, eles exploraram o potencial de relacionamento entre os setores público e privado e como isso tem potencial de acelerar a transformação digital.
Diálogo como chave
Se existe um elemento que, na minha experiência, determina o sucesso de projetos complexos no setor público, é o diálogo. Não só o diálogo formal, que é importante, mas o diálogo técnico, institucional.
Eu participei de consultas públicas, interações técnicas e ciclos longos de maturação de projetos, e o que sempre ficou claro para mim é que o resultado melhora quando esse diálogo é próximo e contínuo.
Quanto maior a participação qualificada do setor privado nesses processos, maior a capacidade de tirar do papel iniciativas que tenham potencial real de impacto na população – e, no fim, é isso que todos queremos.
*Por Marcia Salomão, Diretora de Vendas da Elea Data Centers